terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Playback
Pela janela vejo um pássaro a molhar os pés numa poça de água, entre graffitis mal desenhados e declarações de amor, de adolescentes que acreditam que o amor sente-se num muro. O sangue quente nos pés do pássaro, fazem-o permanecer no frio, e na água gelada. Desvio o olhar da janela, e olho para a parede, por lá se encontra um quadro que me pintaste. Uma rosa vermelha, em que uma das suas pétalas é uma pistola que deita sangue, o teu propio sangue. Pronuncio, que não quis interpretar. Não retiro o quadro da parede, interpretações mudam com o tempo, hoje apenas vejo como um quadro. Não és um pássaro, a sangue frio mataste o muro que me separava do amor, e a sangue frio esqueceste de mim nos teus olhos castanhos. Na vida receamos que certas pessoas não nos esqueçam, mesmo que já não falemos com a pessoa. Temos medo que as memórias se desvaneçam, e que nos vejam apenas como uma pessoa. As pessoas não são quadros, queremos voltar a ser pintados por quem nos coloriu e deu som a momentos de silencio a preto e branco . Os pássaros não são como as pessoas, um pássaro precisa de voar, e voa sem pensar na queda. E nós as pessoas, por vezes precisamos de alguém para voar, mas temos medo de mostrar a nossa dependência, e afastamos sem pensar na queda. Ligo a Tv, assisto ao habitual playback de programas em directo de um cantor sem banda. Ele cai morto, a música continua e o público continua a bater palmas. Enquanto o realizador mudou de plano, o corpo foi removido, e no lugar do recém falecido, na mesma música que não parou, o playback é feito por um homem com mais de 50kg que o anterior. Depois do momento musical, improvisas na euforia do programa de jogos idiotas japonês nuns estúdios coloridos em Tokyo. Gritas por sushi enquanto cais acidentalmente do palco. O publico ri-se, acham engraçado ver pessoas a cair.
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