O cemitério é um local de reflexão e de memória de um vivo com um morto. As cruzes coladas ao memorial esculpido em pedra por cima das sepulturas cavadas debaixo de terra, não afastam o gangue que tomou conta do cemitério no Oeste de Bueno Aires. Vivem nos restos de uma casa que foi ardida, a única habitação perto de um cemitério isolado das concentrações de vivendas e de apartamentos. Vestem fatos de marca comprados com o dinheiro dos assaltos a viúvas, viúvos, órfãos e das outras pessoas que visitam o cemitério para rezas, conversas imaginárias ou de quem sente saudade e largam lágrimas, sorrisos. Formalmente vestidos os assaltantes estão atentos 24 horas por dia, repartidos por dois turnos para que o sono não roube potenciais bens materiais ou dinheiro. Roubam colares, relógios, carteiras, roupa tudo que sirva para vender ou usarem. Os cintos roubados usam-nos para se sufocarem e ficarem pedrados com a falta de ar nos meses em que poucas pessoas são avistadas,e o dinheiro para a droga escasseia. Novos cintos, camurça, sintético tudo serve na moca, e afastarem-se da realidade. Alimentados por armas, mocas, sandes, prostitutas e da saudade dos visitantes de familiares ou amigos falecidos, construíram o seu império num cemitério, e vendem a mercadoria em feiras, ou em lojas de segunda mão. Para quem continua a visitar o cemitério, os assaltos funcionam como um acto de rotina, um bilhete de entrada, no entanto as pessoas que não visitam mais por medo, encontraram outras maneiras de recordar os falecidos.
Visitava o cemitério uma vez por ano, comecei as visitas há cinquenta anos atrás quando era um simples cemitério sem um gangue a tomar por assalto. Foi ali que enterrei os brincos de uma mulher que conheci em Istambul. Pediu-me para guardar os seus brincos num cimitério até ao dia que me encontrasse de novo, mas as rugas fazem-me sentir mais próximo da morte do que com ela. Sofro de pé de atleta e ela provavelmente contraiu o fungo de mim, porque tenho corrido com ela depois de cada assalto.
Dez anos depois da ultima visita aconteceu algo de diferente do habitual, entrei no cemitério e encontrei os corpos dos homens do gangue mortos, não havia cintos nem drogas por perto que indicasse uma overdose. Momentos depois ao som de um piano desafinado, apareceu em passo lento através da nuvem de nevoeiro que pairava o local, uma rapariga descalça com um vestido de noiva preto com rosto coberto com cachecóis e por pedaços dos seus longos cabelos ruivos. Ela disse-me que a mulher dos brincos esqueceu-se do brinco, de mim porque se iludiu com uma enciclopédia cultural com picos de cactos. A rapariga também me obrigou a casar com ela e para retirar os brincos do fundo da terra para lhe oferecer ou se não mataria a minha imaginação. Casámos por separação dos bens, quando nos divorciarmos ela terá direito à minha imaginação, e eu os brincos. Encontro-me sequestrado num casamento com alguém que nunca vi a cara, e passa os dias estática em cemitérios há espera da minha morte para levar a minha imaginação.
devias estar bonito quando escreveste isto, devias
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