terça-feira, 1 de março de 2011

O homem que quis por o universo em tribunal

Sou uma perífrase da Alice no país das maravilhas, a a Goldilocks devorada por ursos depois de ter adormecido em conforto. Coloco o aspirador na minha boca, sem efeitos práticos porque não aspirou a dor. Ando por campos de cevada com insectos mortos a fazerem pontos em feridas, tento fugir dos shinobis de chernobyl, mercenários contratados para assassinar a actividade da minha rádio. Treinei a pergunta inicial mas nunca mais vi a rapariga estrábica, ainda finjo ter síndrome de asperger e nem sequer estou na sala do psicólogo. O universo ligou-me, disse que estava cansado da minha felicidade, e que eu já tinha noções de coisas bonitas, teria que me preparar para o eterno retorno da melancolia, do grito ou do afastar de alguém ou o impulso ridículo de alguém que me afectará. Eu respondi que já pressentia, desliguei a chamada, e comecei a elaborar um plano para meter o universo em tribunal. Não segui com o plano, o universo levou-me por caminhos menos comuns sofrendo ou não, caminhos onde adquiri noções de coisas belas vivendo-as, coisas que me fizeram apagar pré-definições do cliché. Descalço, sem cortar as unhas há seis meses, escondo os pés na cevada enquanto uma mulher naturalmente magra, de cabelos da cor de castanhas e de olhos azuis, vestida com um vestido branco, pousa na minha mão uma pistola de ar, insiste que eu dispare na sua boca para acalmar o seu ataque de asma. Sou um homem com uma pistola na mão, o universo sabe disso, e se ele quiser me tramar arranjaria maneira de meter balas nisto. Tenho consciência que a minha vida é estranha, e que nunca serei feliz pelos menos com os parâmetros idealizados pelas pessoas, por isso que agarro nas pequenas coisas que me fazem sorrir. Durante dias fui ao mesmo espaço da estrábica na esperança de voltar a ver-la, sem sucesso até ao dia que no meu sair, e na sua entrada, disse-me boa noite. O seu olhar estrábico, manteve-se desviado do meu. Respondi boa noite depois de um segundo de hesitação, sem saber se me ouviu, mas eu soube desde daí que nunca mais iria a ver, tal como nunca mais vou ver a mulher que morreu à minha frente com uma bala. A pistola que era para a sua salvação, matou-a. Ahhhhhhh universo...

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