domingo, 6 de junho de 2010

Não sei como

As palavras são tretas. Andamos a acreditar nelas quando apercebemos que ao nosso redor a sua não demonstração. Como comprarmos uma panela que não necessita de óleo para fritar, e ao experimentarmos não temos filetes, mas sim peixe fumado. É um buraco no coração, sombrio e amargo. Ela caminhou cegamente em minha direcção, com batom para pintar as palavras de vermelho a cada morder do lábio. Não me apeteceu pensar em palavras, acenei com piadas que lhe contei um dia na espera de se ter esquecido, e rir-se duas vezes da mesma piada como uma criança. Fiquei de pé atrás, reticente para não abrir um buraco no coração, ao ser levado um pedaço de mim por quem é o inverso de mim. Ela esperou pelo dia seguinte, dia seguinte do seguinte, seguinte do seguinte seguinte, por uns dias até ter uma oportunidade para uma chance de me fazer o raio x das palavras que me confortam. Estou um zombie, preciso de mais químicos para a minha mente, conseguiu-me tirar a dor de tocar no telefone para ligar, sem ligaduras. Não me diz nada, pareço um casaco abandonado no frio, inutil e vazio. As palavras na minha boca tornam-se, não acho piada quem se aproxima duma mesa reservada, para calcar os seus pés. Não acho piada usar-se os circuitos do meu humor para outra pessoa, renegando o seu uso em mim. Do cruzamento desta estrada ela subitamente aparece, o dia torna-se cinzento, os porcos na estrada começam a arder, os prédios ficam sem cor. Cegamente caminha, tira o seu coração sem buracos. Não o mexe como plastecina, aproxima-se de mim, e espanca-me com o seu coração a bater. Para que serve a destruição de camada de ozono, se o seu coração ainda recebe oxigénio, imploro por um novo ataque, o ataque cardieco. A sua boca não abre, palavras permanecem nela, restos de batom não ficam em mim. Aguento porque a vida é um fight club, no chão a sangrar faço uso da mesma piada pela terceira vez. Ela começa a rir-se com a boca fechada, para em seguida sufocar com a sua lingua. Morreu. Levanta-se do chão sem a criança que há dentro dela, como irei safar-me disto. A piada não irá resultar, mas se não tentar não saberei. Morreu. O dia, a cidade voltam ao normal, acabei de matar com a piada, a mulher com memória de peixe.

2 comentários:

  1. Gostava de conseguir deixar aqui um comentário sobre o quão fantástico está este texto, mas tenho uma mulher nua em cima que me distrai um bocado. Peço desculpa.

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