quinta-feira, 1 de abril de 2010
A pop arte devolveu-me o dadaismo
Ao descer pela rua pensei que era a única pessoa do mundo. Até que num cruzamento, rapidamente uma mulher que parecia tão igual a muitas outras encontrava-se de costas. Enquanto eu olhava para o seu rabo apenas pensava que ela podia olhar para trás e dizer-me algo. E disse. Pediu-me lumes com a naturalidade de quem apresenta o bilhete identidade de nome Jesus Cristo. Ela era uma mulher com face pop arte estilo banda desenhada mais pálida que as mulheres que Roy Lichtenstein criara. Os seus braços eram feitos por traços de lápis feitos sem precisão duma régua mas apresentavam a elegância de fotografias a preto e branco. Ela era preto e branco, menos os seus lábios pintados a batom vermelho, e o lingerie prateado arcaico que é também uma armadura que lhe tapava os seios. O pescoço, as costas, a barriga, o resto do seu corpo eram feitos de jornais fanzines de música alternativa e punk dos anos 70 de forma cartoonesca. Perante peculiar mulher, não hesitei em responder ao seu pedido. A minha resposta foi afirmativa. Passei-lhe o isqueiro, e as suas bochechas pálidas ficaram rosa como numa pintura em aguarela. Voltou para o lado contrario que caminhávamos, porém ficou com o isqueiro que gentilmente emprestei pensando que seria eventualmente para ela fumar um cigarro e devolver-me o isqueiro. Depois de uns segundos de indefinição, fui atrás dela para pedir pelo meu isqueiro, respondeu-me que daria depois de pedir um cigarro. Eu tinha cigarros, mas recusou dizendo que não queria um cigarro meu, só o isqueiro. Caminhei junto dela na espera do meu isqueiro,e continuei a apreciar o seu rabo aproveitando para ler sobre bandas dos anos 70 nas suas pernas. A leitura em andamento era de difícil execução, confesso que olhei mais para o seu rabo que parecia ser a única coisa humana que tinha embora estivesse debaixo de pedaços de tecido de ganga. Não dissemos uma palavra durante o caminhar até que avistamos uma menina, que devia ter os seus três anos que andava sozinha na rua com um guarda chuva às três da manhã. A peculiar mulher pediu um cigarro à menina, com tal acto fiquei abismado. Como se não bastasse a menina tirou um cigarro do seu bolso, calcou-o até ficar inconsumível e continuou a caminhar calmamente como uma modelo numa passarelle. Ela pediu-me para roubar o guarda chuva da menina para não ficar molhada. Eu olhava para o seu rabo e pensava porque raio não me vê como suficientemente atraente para a deixar molhada que precisa de um guarda-chuva para se proteger. O meu alienar da realidade, não se apercebeu que ela tinha acabado de tirar um cigarro da sua lingerie. Devagar à medida que o cigarro se acabava, ela sumia-se como o tabaco. Só o seu rabo sobrou, seria para guardar e contemplar ou para eu o utilizar para o meu próprio prazer ? mas que me adiantava um rabo sem a pessoa. Nesse dia regressei para casa cansado, adormeci sem pensar no sucedido, embora contente por ter o meu isqueiro de volta.
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